Do silêncio ao futuro: como mulheres pretas estão reinventando a TI brasileira
- camilagalvez24
- 20 de nov.
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Neste Dia da Consciência Negra, batemos um papo com Danielle Marques, fundadora do hub de empreendedores negros Do Silêncio ao Silício, sobre inclusão real que nasce de ação, conhecimento e coragem para romper ciclos
Por Camila Galvez
"O medo é
uma coragem
ao contrário."
A frase é do livro Olhos d'água, da autora negra brasileira Conceição Evaristo, mas poderia muito bem resumir a trajetória de vida e carreira de Danielle Marques. Fundadora do hub de inovação para empreendedores negros Do Silêncio ao Silício e ganhadora de reconhecimentos como o Forbes Under 30, o MIT Innovator Under 35 e MIPAD 40 Under 40, Danielle é conhecida como alguém que, mesmo com medo, encara e topa o desafio de ser uma das (ainda) raras mulheres no mercado de tecnologia brasileiro.
Aliás, quando olhamos pra esse mercado, ele nos revela um contraste incômodo: somos um país em que 56% da população se autodeclara preta ou parda (segundo o IBGE), mas as mulheres pretas seguem representando menos de 3% das pessoas que trabalham em tecnologia, e menos de 0,5% em cargos de liderança. A matemática é simples, mas dolorosa: quanto mais alto o cargo, mais branca e mais masculina é a TI nacional. E não é falta de talento. É falta de acesso, formação e ambiente que acolha trajetórias historicamente atravessadas por desigualdades estruturais.
O desafio começa muito antes da entrada no mercado de trabalho. Pesquisas do Unicef e Todos Pela Educação mostram que meninas negras são as que mais enfrentam defasagem escolar, principalmente em matemática e inglês, justamente as habilidades que se tornam barreiras na porta de entrada da tecnologia. Some a isso a sensação de não pertencimento, a ausência de referências e o fato de que as grandes discussões sobre Inteligência Artificial seguem acontecendo longe das comunidades que mais sentirão seus impactos. O resultado é um ciclo perverso: quem mais precisa da inclusão tecnológica é quem menos aparece nas decisões sobre o futuro digital do país.

É justamente nesse abismo que iniciativas como a de Danielle Marques se tornam um ponto de virada. Danielle não só pesquisa o impacto da IA sobre comunidades negras da América Latina. Ela age pra mudar o cenário, conectando pessoas pretas ao Vale do Silício, compartilhando conhecimento sobre empreendedorismo com a comunidade negra, criando pontes de acesso, oferecendo experiências que ampliam repertórios e rompendo a lógica de que esses espaços “não são para elas”.
No bate-papo a seguir, ela mostra que a tecnologia só é revolucionária quando inclui. E que o futuro da TI brasileira passa, necessariamente, por ouvir, formar e abrir caminho para as mulheres pretas que sempre estiveram do lado de fora das decisões.
Você costuma dizer que “pessoas são nossa maior tecnologia”. Como essa visão se conecta com o Dia da Consciência Negra e com a urgência de ampliar a participação de mulheres negras na TI?
Danielle: Eu gosto muito dessa frase porque, pra mim, tecnologia só faz sentido quando é construída com e para as pessoas. E quando a gente fala de diversidade, principalmente no Brasil, não dá pra dissociar tecnologia de inclusão. Somos um país onde 56% da população é preta ou parda, e mesmo assim seguimos criando produtos e serviços que não consideram esse grupo. A pauta da diversidade até desacelerou um pouco, mas ela é fundamental para que a tecnologia gere impacto real. No contexto do Dia da Consciência Negra, falar de mulheres pretas na TI é falar de colocar no centro quem sempre esteve nas bordas. Não é um movimento “bonito de ter”. É urgente, é necessário, e deveria ser natural.
Em que momento da sua trajetória você percebeu que tecnologia, justiça social e inovação não só podiam, mas precisavam se cruzar?
Danielle: Minha história com tecnologia começa de um jeito curioso: pesquisando afroempreendedorismo, lá em 2017. Eu fazia Administração na Unaerp, um curso bem voltado para mercado e com pouca pesquisa. Mas na época já falava muito sobre startups, inovação, empreendedorismo. Ao conversar com empreendedores negros, percebi que eles tinham demandas reais: fluxo de caixa, precificação, estratégia. E eu, universitária, não tinha as respostas. Comecei a estudar para ajudar, e isso me jogou nesse ecossistema. Entrei numa pré-aceleradora da USP, fui a primeira estudante de fora da universidade a fazer parte do núcleo. A virada mesmo veio quando entrei no Quinto Andar, em 2019. Eu nunca tinha imaginado trabalhar em tecnologia. E quando pisei ali, entendi de vez que tecnologia só faz sentido quando resolve problemas reais e que justiça social é parte dessa equação.
Muitos jovens, especialmente as meninas, não se sentem merecedores dos espaços de tecnologia. Olhando para a sua trajetória, da faculdade ao núcleo da USP, você também sentiu que não pertencia? E como vê esse impacto hoje?
Danielle: com certeza. Estar nesses espaços ainda é uma luta diária, porque eles não foram criados para que pessoas como eu estivessem ali. São muitas barreiras: a defasagem da escola pública, as dificuldades em matemática, a falta de acesso ao inglês… tudo isso vai afastando a gente da tecnologia. Tem uma frase do filme “Estrelas Além do Tempo” que me marcou muito: “quando a gente chega na linha de chegada, mudam o ponto de partida”. É exatamente assim que funciona. Recentemente, por exemplo, fui apresentar um trabalho sobre soberania digital em Portugal. Eu ia fazer em inglês, e de repente pensei: “por que estou fazendo isso?”. Estava num país lusófono e o inglês, para nós, já é uma barreira de acesso. Fiz em português. A legenda estava ali, quem quisesse que lesse. Na tecnologia, e especialmente para mulheres negras, o movimento precisa ser fortalecido o tempo inteiro. É um ambiente solitário, cheio de estratégias que afastam a gente. E aí penso: se a IA vai revolucionar o mundo, por que não é acessível para nós? Por que não sabemos o básico? Somos as primeiras a ser impactadas e as últimas a tomar decisões. Por isso, incluir mulheres negras não é uma pauta eventual. É um exercício diário.
E diante dos obstáculos, o que te motivou a continuar quando o sistema parecia empurrar você para fora?
Danielle: Acho que isso vem desde a infância. Cresci num bairro violento e minha mãe cuidava de crianças que viviam situações muito difíceis. Meu pai acompanhava política, jornal, sindicato. Então eu cresci com inquietude, vendo desigualdade de perto. Apesar das limitações, meus pais sempre foram muito visionários. Minha mãe só teve o ensino médio e meu pai parou na quarta série, mas dentro de casa educação era regra: ir bem na escola, estudar, ter disciplina. E minha mãe tinha uma estratégia que, olhando hoje, eu vejo que salvou a mim e muitas crianças. Ela nos levava para brincar em bairros mais ricos e fazia a gente imaginar outras realidades: “qual casa você quer?”, “que carro você quer?”, “onde você sonha morar?”. Ela levava a gente para o shopping, para o cinema, sempre criando brechas para que a gente visse que o mundo não era só o nosso bairro. Eu cresci indignada por saber que aquilo existia, mas não era para nós. E isso virou combustível. Eu sabia qual era o destino que tinham traçado para mim: gravidez na adolescência, abandonar a escola… mas decidi que essa não seria a minha história. Por tudo que vivi coletivamente, sempre senti que não poderia ir sozinha. Motivação, pra mim, vem muito de dentro, mas também vem desse compromisso: se eu for, outras pessoas vão comigo.
Sua pesquisa atual analisa os impactos da IA nas comunidades negras da América Latina. Qual é o maior risco e qual é a maior oportunidade que você enxerga?
Danielle: O maior risco é aumentar ainda mais a desigualdade. A história já mostrou que revoluções tecnológicas substituem postos de trabalho. Isso não é novidade. O problema é que as pessoas que mais perdem seus empregos nunca são as mesmas que são capacitadas para operar as novas tecnologias. Outro risco é a falta de educação tecnológica. Estamos em 2025 discutindo inteligência artificial generativa, mas crianças nas escolas públicas não aprendem nem o básico sobre tecnologia. Aí o celular chega antes da educação, e isso cria um abismo. Mas também existe uma oportunidade enorme: usar a IA como ferramenta para resolver problemas reais. Quando eu falo de “tecnologia comunitária”, é sobre isso. A gente sempre soube, na prática, como agir em enchentes, por exemplo. A IA pode potencializar essa inteligência que já existe. A grande virada é combinar tecnologia com conhecimento comunitário.
Você liderou iniciativas de diversidade em empresas de tecnologia que passaram por grandes rodadas de investimento. O que as empresas ainda não entenderam sobre inclusão?
Danielle: Que não existe inclusão sem investimento. Um dos projetos de que mais me orgulho foi um programa de jovens aprendizes para formar meninas negras programadoras. Quando puxei dados e vi que, numa empresa com três mil funcionários, só existiam 19 mulheres negras programando, eu provoquei a liderança. O resultado: capacitamos meninas de 18 a 24 anos, ensinamos programação e depois elas foram contratadas.
A vida delas mudou completamente. E o negócio também ganhou — olhar novo, geração nova, diversidade real. As empresas falam muito sobre diversidade, mas resistem a colocar dinheiro. Só treinamento não resolve. É preciso ouvir as dores das mulheres negras, criar planos de carreira, investir em formação, garantir oportunidades práticas. Sem isso, diversidade vira só discurso.
Você fundou o “Do Silêncio ao Silício” e levou empreendedores negros aos maiores polos de tecnologia do mundo. O que diferencia um ecossistema realmente inclusivo de um que só fala sobre inclusão?
Danielle: Pessoas. A diferença está nas pessoas. No Mozilla Festival, na Espanha, fiquei impressionada com a diversidade real: mulheres trans, pessoas negras, gente de várias nacionalidades e religiões discutindo tecnologia, direitos digitais, internet para todos. Era um ambiente onde você sente que tem lugar, que sua perspectiva importa. No Vale do Silício, o discurso é bonito, mas as ações nem sempre acompanham. Num ecossistema inclusivo, diversidade não é pauta: é prática.
Por que incluir mulheres pretas na criação de tecnologia é um fator de inovação e não apenas de justiça social?
Danielle: Porque estamos falando do maior grupo populacional do país. Não tem como criar produtos para o Brasil excluindo quem é a base da sociedade. E mulheres negras carregam repertório, vivência e dores que precisam estar na mesa de decisão. Quando uma solução funciona para mulheres negras, ela funciona para todo mundo. Isso é inovação. Isso é eficiência. E isso é negócio.
O setor de TI ainda tem a tal “expectativa de pertencimento”. Que conselho você daria para empresas que querem ser ambientes onde mulheres pretas realmente cresçam?
Danielle: Primeiro: ouvir. Se empresas dizem que clientes estão no centro, por que colaboradores não estão? É preciso entender as dores das mulheres negras e criar um plano de ações concreto com letramento racial, investimento em formação, metas nítidas, plano de carreira, dinheiro aplicado onde o discurso está. E, principalmente: abrir espaço real para liderança.A gente não tem nenhuma mulher negra CEO de empresa listada na bolsa no Brasil. Isso não muda sem intenção.
E para as mulheres pretas que querem entrar ou crescer na TI: qual habilidade é mais transformadora hoje?
Danielle: Aprender. E desaprender também. Eu separo um tempo todos os dias para estudar, me atualizar e desenvolver habilidades técnicas e humanas. Não precisa ter dinheiro: a internet está aí. Eu uso YouTube, uso plataformas gratuitas, uso IA, mas não para “fazer por mim”, e sim para me ensinar. O compromisso tem que ser consigo mesma. Conhecimento é uma tecnologia que ninguém tira da gente.
Quando mulheres pretas lideram processos tecnológicos, que futuro você enxerga? E como imagina esse cenário em cinco anos?
Danielle: Se tivermos intenção coletiva, com união entre empresas, governo e sociedade, cinco anos é até muito tempo. Dá pra transformar muita coisa. Eu sou otimista. Com mais mulheres negras criando, liderando e tomando decisões, a gente resolve problemas reais. Penso num futuro onde tecnologia e humanidade caminham juntas, onde decisões respeitam nossas histórias, nossos territórios, nossa soberania. A inclusão de mulheres negras não beneficia só elas: beneficia o mundo.
Desde 2022 você tem metas nítidas para 2025. O que já conseguiu realizar e o que mais te marcou nessa jornada?
Danielle: A maioria das metas a gente alcançou. Levamos 20 empreendedores negros ao Vale do Silício, criamos experiências internacionais, oferecemos inglês, networking, formação. E mais importante: devolvemos isso à sociedade. Firmamos parceria com a ONG Despertar, na Zona Sul de São Paulo, e hoje oferecemos mentoria para cinquenta jovens da periferia. Eu acredito muito nesse propósito: ninguém chega sozinho. Fui transformada por pessoas, por encontros, por conversas e quero continuar sendo ponte para outras pessoas.
E para quem ainda não deu o primeiro passo porque não se sente merecedora desses espaços? O que você diria?
Danielle: Primeiro, que esse sentimento é real. E é fruto de um sistema que não foi feito para a gente. Mas também diria: procure referências parecidas com a sua. A gente só acredita que é possível quando vê alguém parecido conosco fazendo. E aí: coragem. Coragem para mandar mensagem, pedir ajuda, puxar conversa, se colocar no mundo. Minha vida mudou porque eu tive coragem de mandar mensagens que me davam medo. Nem todo mundo respondeu, mas quem respondeu abriu portas gigantes. O primeiro passo é seu. O caminho aparece depois.
*Camila Galvez é jornalista na FOURGE e estudante de História. Uma sagitariana inquieta e cheia de perguntas, que traz em seus textos um olhar para o passado na tentativa de entender o presente e ajudar a construir o futuro







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