Janeiro Branco: como a tecnologia apoia a saúde mental
- camilagalvez24
- 21 de jan.
- 4 min de leitura
Entre dados, intenção e humanidade, tecnologia ganha novo papel no cuidado com a saúde mental dentro e fora do trabalho
Por Camila Galvez*
"Quando falamos de tecnologia em saúde mental, a intenção e a confiança são tão importantes quanto a própria ferramenta. A sensação de segurança abre espaço para que a pessoa realmente se conecte consigo mesma."
Se eu tivesse que resumir o bate-papo que tive com a Thieize Bastiani Zapata, coordenadora do Viver Bem da Unimed Porto Alegre, em uma frase, com certeza seria esta. A FOURGE convidou a Thieize para falar sobre o Janeiro Branco, mês de conscientização sobre a saúde mental, porque além de sermos parceiros da Unimed Porto Alegre e do Viver Bem, a Thieize é também estudante de Psicologia. E ela tem exatamente a mesma visão que nós sobre este mês: que ele não é só pra falar de ausência ou diagnóstico de transtornos, viu? Em um contexto de trabalho cada vez mais acelerado, digital e híbrido, essa discussão ganha urgência no ambiente corporativo e precisa ir além da CID.

No Brasil, os números reforçam essa necessidade. Pesquisas recentes indicam que mais da metade das pessoas que trabalham relata sintomas de ansiedade ou depressão associados ao labor. Dados da Associação Brasileira de Psiquiatria mostram que transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho, enquanto a ISMA Brasil aponta que o estresse crônico é um dos maiores fatores de impacto na produtividade e na qualidade de vida.
Nesse cenário, a tecnologia aparece como parte da solução, mas não como resposta automática. Para Thieize, o ponto central não está na ferramenta em si, mas na forma como ela é concebida e utilizada. A psicologia, segundo ela, traz elementos essenciais para que soluções digitais em saúde mental sejam realmente acolhedoras. Segurança, confiança, privacidade e transparência são fundamentais, conforme a especialista, porque o cuidado emocional pressupõe vulnerabilidade. “Quando uma pessoa se abre em um ambiente digital, especialmente para alguém que não conhece, qualquer ruído na comunicação ou na clareza sobre o uso de dados fragiliza a relação desde o início”, explica.
Humanização na era da IA
Outro ponto decisivo para Thieize é a humanização. A tecnologia pode apoiar em escala, inclusive com o uso de inteligência artificial, mas não pode perder de vista sentimentos, emoções e a singularidade de cada indivíduo. “A percepção de autonomia também é essencial: a pessoa precisa sentir que tem controle sobre sua jornada de cuidado, podendo escolher abordagens, conteúdos e formas de interação que façam sentido para sua realidade”, detalha a especialista.
Essa visão ajuda a separar o uso da tecnologia que apoia o equilíbrio emocional daquele que pode gerar sobrecarga ou afastamento. Para Thieize, tudo começa pela intencionalidade. Quando alguém busca uma solução digital em saúde mental, nem sempre existe um quadro patológico, mas há um incômodo, um sinal silencioso de que algo precisa de atenção. A tecnologia pode ser um primeiro passo importante, inclusive para quem ainda sente vergonha ou resistência em procurar ajuda presencial.
No entanto, ela faz uma ressalva: tecnologia não substitui terapia, nem o contato humano. “Ferramentas digitais podem aproximar pessoas, reduzir isolamento e apoiar o autoconhecimento, mas não eliminam a necessidade de relações humanas profundas e autênticas”, alerta.
Viver Bem
No Viver Bem, área da Unimed Porto Alegre que conta com parceria da FOURGE, essa lógica se traduz em uma jornada de cuidado personalizada. Apps, check-ins digitais e conteúdos educativos não são usados de forma isolada, mas como instrumentos para compreender necessidades individuais ao longo do tempo.
Questionários que abordam sono, alimentação, rotina e aspectos emocionais ajudam a identificar padrões e antecipar riscos, permitindo intervenções mais humanas e preventivas. Esse olhar longitudinal beneficia o indivíduo e, ao mesmo tempo, gera sustentabilidade para o sistema de Saúde ao reduzir agravamentos e custos evitáveis.
A coleta de dados sensíveis é outro tema central. Para Thieize, o equilíbrio entre personalização e segurança passa por uma comunicação nítida e humanizada. “As pessoas precisam entender por que aquelas informações estão sendo coletadas e como serão usadas, sem o medo de exclusões ou aumento de custos. Esse desafio revela a importância do letramento em saúde, ainda pouco difundido no Brasil, mas essencial para decisões mais conscientes”, destaca.
Ambiente de trabalho e saúde mental
No ambiente de trabalho, sinais de sofrimento emocional coletivo nem sempre são explícitos. Queda de engajamento, aumento de erros, irritabilidade e perda de criatividade podem indicar sobrecarga. A tecnologia pode ajudar lideranças a perceber esses padrões mais cedo, mas, novamente, não substitui o olhar atento, o diálogo e a escuta qualificada.
Ao olhar para 2026, Thieize defende uma inovação responsável. Em saúde mental, a tecnologia precisa ser pensada com ainda mais cuidado, baseada em evidências e centrada nas pessoas. Conexão humana, empatia e presença não são delegáveis. A tecnologia pode ampliar o cuidado, mas nunca ocupar o lugar da experiência vivida.
O avanço, portanto, não está em ter mais ferramentas, mas em usar a tecnologia para apoiar escolhas mais conscientes sobre como vivemos, trabalhamos e cuidamos de nós mesmos.
Janeiro Branco lembra exatamente isso: não é preciso adoecer para ser cuidado. E inovação, quando faz sentido, começa no humano.
*Camila Galvez é jornalista na FOURGE e estudante de História. Uma sagitariana inquieta e cheia de perguntas, que traz em seus textos um olhar para o passado na tentativa de entender o presente e ajudar a construir o futuro



