O que esperar de 2026?
- Jéssica Galvão
- 17 de dez.
- 4 min de leitura
Spoiler: não é o que está nas listas de tendências. Quer saber o que é? Vem pro texto que eu te conto
Por Camila Galvez*
Se você chegou até aqui esperando mais uma daquelas listas com “as 10 tecnologias que vão bombar no próximo ano”, eu sinto te desapontar. O que queremos propor para 2026 não é sobre hype, mas sobre prioridade real. É sobre olhar para dentro dos negócios e perguntar: quem somos, para que servimos e como fazemos o trabalho que realmente importa.
O professor Luis Fernando Saraiva, Head da PUCRS Consulting e uma das referências brasileiras em estratégia, dados e inteligência artificial, foi nosso convidado para esse desafio. Ele reforça que o problema das empresas nunca foi a tecnologia. O problema é como elas a enxergam. Durante a conversa, ele compartilhou uma verdade desconfortável: estamos vivendo a mesma lógica que já vimos com palavras como inovação, transformação digital e qualidade total. Agora o hype é a IA. E, mais uma vez, vemos empresas tentando encaixar a tecnologia no negócio de cima para baixo sem entender o básico: quais problemas ela resolve? Quem ela potencializa? Para onde ela deve mover o sistema?
O erro mais comum de 2026 já começou em 2025
Luis começa com uma provocação: quase todo mundo acha que IA é “colocar o ChatGPT na empresa”. Mas IA existe desde os anos 1980. O problema real, segundo ele, é outro: “as empresas não sabem o que estão tentando resolver.”
Essa miopia faz com que organizações adotem tecnologias como quem adota moda. Não existe análise de contexto, maturidade ou cultura. E, quando isso acontece, o que sobra é ruído: dashboards bonitos sem impacto, automações que ninguém usa, agentes digitais que são desligados silenciosamente.
Ele conta que muitas empresas dizem que “não estão prontas para IA porque não têm dados”. Mas dados elas têm: nos ERPs, nos CRMs, em planilhas esquecidas e, principalmente, na cabeça de pessoas com 20 ou 30 anos de experiência. O problema não é a falta de dados. É a falta de cultura orientada a dados.
Enquanto negócios ainda tentam entender o que fazer com IA, universidades como a PUC-RS já estão se concentrando em formar profissionais que não existiam há poucos anos: os designers de agentes digitais. Pessoas capazes de entender o negócio, mapear processos e desenhar onde agentes digitais fazem sentido. E tem mercado pedindo exatamente isso.
Segundo Luis, novas profissões estão nascendo, líderes precisam ser requalificados e metodologias de ensino estão sendo revistas para acompanhar a velocidade da tecnologia. No entanto, há um descompasso: “é um desafio porque para formar os alunos, precisamos capacitar rapidamente os professores primeiro”.
E nas empresas? Nelas a questão central está na cultura, que evolui muito mais devagar que a tecnologia.
Organizações “paradas no tempo” deixam rastros
Luis é direto: “Novas tecnologias em empresas velhas geram empresas velhas e caras.”
Ele lista os principais sinais de organizações que pararam no tempo:
Indicadores financeiros estagnados ou decrescentes.
Portfólios cansados, sem produtos com potencial de virar a próxima vaca leiteira.
Ambientes tóxicos, culturas frágeis, governança com cara de 1970.
Sabotagem interna de qualquer tecnologia nova.
Sem resolver esses e outros gargalos, qualquer investimento em IA (ou outra tecnologia de potencial transformador) vira faísca em palheiro. O fogo aparece, impressiona por alguns segundos e desaparece sem deixar resultado.
Outro ponto essencial do bate-papo com Luis, e que é apontado como uma tendência para os próximos anos, é que a mudança só acontece quando as lideranças mudam antes.
Luis contou um caso da época em que foi diretor em uma grande empresa de tecnologia no Vale do Silício. A primeira decisão do vice-presidente foi clara: todos os gestores teriam formação em liderança antes de reestruturar qualquer processo ou adotar qualquer tecnologia. Depois disso, criaram uma organização em rede, com conexões por competência e não por hierarquia rígida. O resultado? Um time mais leve, alinhado, responsável e capaz de absorver novas tecnologias sem ruído.
É essa lógica que separa empresas esgotadas das empresas preparadas: antes de transformar o sistema, transformam as pessoas que operam o sistema.
O profissional de 2026 não vale pelo que produz, mas pelo que pergunta
Uma das reflexões mais fortes trazidas por Luis é que o trabalho está deixando de ser medido por volume ou velocidade. A IA faz isso. E faz melhor.
A habilidade mais valiosa de 2026 será fazer boas perguntas. Entender o negócio, entender o contexto, entender mecanismos humanos. Ser capaz de gerar provocações que movem o sistema e alimentam a IA com insumos que só um ser humano consegue produzir.
Nas palavras dele, “não vamos medir o aluno pela saída, porque a saída será feita pela IA. Vamos medir pela entrada: pelo tipo de provocação que ele faz.” E nas empresas é possível fazer exatamente o mesmo.
6. O conselho mais honesto para gestores que querem sobreviver a 2026
No final, pedi a Luis que deixasse o conselho mais honesto para gestores que querem sobreviver e prosperar em 2026. Ele respondeu com uma ordem simples, que resume tudo o que a gente conversou (e que a FOURGE acredita): “Olhe seu negócio na ordem correta: pessoas ajudam o negócio e tecnologia ajuda as pessoas. Quando você inverte isso, vira escravo da tecnologia.”
É essa visão que 2026 exige: empresas que param de correr atrás do hype e começam a correr atrás de nitidez.
Lideranças que entendem que IA não substitui ser humano, mas depende dele.
Negócios que fazem tecnologia trabalhar para gente e não o contrário.
E esse é exatamente o olhar que a FOURGE acredita e pratica: tecnologia como habilitador, não como destino; cultura como motor; estratégia como bússola; pessoas como centro.
2026 não será sobre a próxima sigla da moda. Será sobre maturidade. Sobre perguntas. Sobre escolhas. E sobre coragem para mexer no core antes de instalar qualquer ferramenta brilhante.
*Camila Galvez é jornalista na FOURGE e estudante de História. Uma sagitariana inquieta e cheia de perguntas, que traz em seus textos um olhar para o passado na tentativa de entender o presente e ajudar a construir o futuro



