Saúde mental no trabalho não é campanha
Setembro pode abrir a conversa, mas saúde mental no trabalho exige mudanças permanentes na forma como as empresas lideram, organizam suas operações e cuidam das pessoas
Por Camila Galvez*
Durante o mês de setembro, o amarelo costuma tomar conta das empresas, das redes sociais e das campanhas de conscientização. Palestras, conteúdos, conversas e ações colocam a saúde mental em pauta. Mas existe uma pergunta que deveria continuar sendo feita quando setembro termina: o que muda na rotina da empresa depois que a campanha acaba?
Para entender por que essa discussão precisa ir além de um mês do calendário, vale voltar um pouco na história. Na Revolução Industrial, entre os séculos XVIII e XIX, a expansão das fábricas, das jornadas extensas e das novas formas de produção colocou em evidência acidentes, doenças ocupacionais e condições precárias de trabalho. Foi nesse contexto que começaram a surgir iniciativas de proteção à saúde dos trabalhadores, inicialmente concentradas nos riscos físicos. Ao longo das décadas, porém, o conceito de saúde ocupacional foi se ampliando. Hoje, ele considera também aspectos mentais, sociais e organizacionais relacionados à maneira como o trabalho é desenhado, organizado e gerenciado.

O próprio Setembro Amarelo tem uma história mais recente. O movimento foi lançado no Brasil em 2015 pelo Centro de Valorização da Vida, com a primeira edição da campanha, o lançamento do site setembroamarelo.org.br e do selo “Falar é a melhor solução”. Naquele mesmo ano, começou também o projeto piloto do atendimento pelo 188 no Rio Grande do Sul. A inspiração da cor amarela vem do Yellow Ribbon Suicide Prevention Program, criado nos Estados Unidos em 1994.
A conexão entre essas duas histórias é importante. Ao longo do tempo, aprendemos que proteger quem trabalha não significa apenas evitar acidentes ou doenças provocadas pelo ambiente físico. A própria organização do trabalho pode influenciar a saúde das pessoas.
Hoje, a Organização Internacional do Trabalho considera como riscos psicossociais fatores como excesso de carga e ritmo de trabalho, longas jornadas, pouca autonomia, falta de apoio, relações profissionais problemáticas, insegurança e dificuldades na conciliação entre trabalho e vida pessoal. Em 2026, a Organização Internacional do Trabalho (OIT) publicou um relatório global reforçando que a forma como o trabalho é desenhado, organizado e gerenciado precisa fazer parte das estratégias de prevenção.
É aqui que saúde mental no trabalho passa a ser uma questão de gestão. Como a empresa distribui as demandas? As pessoas têm autonomia para decidir? Existe espaço para discordar sem medo? Os líderes realmente escutam? É possível dizer que algo não está bem antes de chegar ao limite? Os erros são tratados como oportunidade de aprendizado ou como motivo para punição? E existe espaço para a vida que acontece fora do trabalho?
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda justamente que as empresas olhem para essas condições de forma estrutural, com intervenções organizacionais, formação de gestores e trabalhadores, adaptações quando necessárias e ações para promover ambientes de trabalho mais saudáveis.
Na prática, isso significa que saúde mental no trabalho também passa por liderança, processos, cultura e relações.
Na nossa casa
É por isso que, na FOURGE, falar sobre pessoas não significa apenas criar benefícios ou promover uma ação pontual. É óbvio que fizemos a nossa, mas nosso pensamento vai além. Saúde mental no trabalho tem a ver com construir um ambiente em que diferentes perspectivas possam participar das decisões, em que exista espaço para diálogo e vulnerabilidade sem que isso seja confundido com falta de competência, e em que diversidade e respeito façam parte da forma como trabalhamos.
Isso não significa construir empresas sem pressão, cobrança ou metas. Significa entender que resultado sustentável também depende das condições em que as pessoas trabalham para alcançá-lo.
Setembro pode ser o momento de começar essa conversa. Mas saúde mental no trabalho precisa continuar sendo discutida quando o amarelo sai dos murais, das redes sociais e dos calendários.
A melhor campanha é aquela que deixa de ser campanha e passa a fazer parte da gestão.
Cuidar de pessoas não deveria ser uma ação de setembro. Deveria estar presente na maneira como a empresa lidera, toma decisões, organiza o trabalho e constrói o futuro.
*Camila Galvez é jornalista na FOURGE e estudante de História. Uma sagitariana inquieta e cheia de perguntas, que traz em seus textos um olhar para o passado na tentativa de entender o presente e ajudar a construir o futuro




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