Yuval Noah Harari sobre o que o ano 2050 reserva para a humanidade

Atualizado: Jun 15

"A medida que o ritmo da mudança aumenta, o significado de ser humano poderá sofrer mutações e estruturas físicas e cognitivas irão desaparecer".



Esqueça programação - a melhor habilidade para ensinar as crianças é a reinvenção. Neste trecho exclusivo de seu novo livro, o autor de Sapiens revela o que 2050 reserva para a humanidade.


Parte um: a mudança é a única constante

A humanidade está enfrentando Revoluções sem precedentes, todas as nossas antigas histórias estão desmoronando e nenhuma nova história surgiu até agora para substituí-las. Como podemos nos preparar e preparar nossas crianças para um mundo com tantas transformações e incertezas radicais? Um bebê nascido hoje terá trinta e poucos anos em 2050. Se tudo correr bem, ele ainda estará vivo em 2100, e pode até ser um cidadão ativo do século 22. O que devemos ensinar a esse bebê para ajudá-lo a sobreviver e prosperar no mundo de 2050 ou do século 22? Que tipo de habilidades ele vai precisar para conseguir um emprego, entender o que está acontecendo ao seu redor e explorar o labirinto da vida?

Infelizmente, como ninguém sabe como o mundo vai ser em 2050 - para não dizer 2100 - nós não temos respostas para estas perguntas. É claro que os seres humanos nunca foram capazes de prever o futuro com precisão, mas hoje é ainda mais difícil. Uma vez que a tecnologia nos permite projetar corpos, cérebros e mentes, não se pode mais ter certeza sobre qualquer coisa - incluindo coisas que anteriormente pareciam estáveis e eternas.

Há mil anos, em 1018, havia muitas coisas que as pessoas não sabiam sobre o futuro, mas elas estavam convencidas de que as características básicas da sociedade humana não iriam mudar. Se você vivia na China em 1018, você sabia que em 1050 a Dinastia Song podia desmoronar, os Khitans podiam invadir o Norte do país, e as pragas podiam matar milhões. No entanto, estava claro para você que mesmo em 1050 a maioria das pessoas ainda trabalharia como agricultor e tecelão, os governantes ainda dependeriam de humanos para o staffde seus exércitos e para serviços burocráticos, os homens ainda dominariam as mulheres, a expectativa de vida ainda seria por volta dos 40 anos, e o corpo humano seria exatamente o mesmo.

Assim, em 1018, as famílias pobres chinesas ensinavam suas crianças a plantar arroz ou a tecer seda, e as famílias mais ricas ensinavam aos meninos como ler os clássicos de Confúcio, caligrafia ou lutar a cavalo – e às meninas a ser donas de casa modestas e obedientes. Era óbvio que essas habilidades ainda seriam necessárias em 1050.

Em contraste, hoje não temos ideia de como a China ou o resto do mundo vai ser em 2050. Nós não sabemos com o que as pessoas vão trabalhar, nós não sabemos como os exércitos ou o governo vão funcionar, e nós não sabemos como serão as relações de gênero. Alguns povos provavelmente viverão muito mais tempo do que hoje, e o corpo humano poderá ser submetido a uma revolução sem precedentes graças à bioengenharia e às interfaces cérebro-computador. Muito do que as crianças aprendem hoje provavelmente será irrelevante em 2050.

Atualmente, muitas escolas se concentram na informação. No passado isso fazia sentido, porque a informação era escassa, e mesmo o compartilhamento lento das informações existentes era sucessivamente bloqueado pela censura. Digamos que você tivesse vivido em uma pequena cidade do México em 1800, teria sido difícil para você saber muito sobre o mundo. Não havia rádio, televisão, jornais ou bibliotecas públicas. Mesmo se você fosse alfabetizado e tivesse acesso a uma biblioteca privada, não havia muito o que ler além de romances e de folhetos religiosos. O império espanhol censurou fortemente todos os textos impressos localmente e permitiu apenas que algumas publicações de fora fossem importadas. O mesmo aconteceu em pequenas cidades da Rússia, Índia, Turquia ou China. Quando as escolas modernas vieram, ensinando as crianças a ler e escrever e transmitindo conhecimentos básicos de Geografia, História e Biologia, representaram uma grande melhoria.

Em contraste, no século XXI, estamos inundados por uma enorme quantidade de informação, e até mesmo os censores não tentam bloqueá-la. Em vez disso, eles estão ocupados espalhando desinformação ou nos distraindo com coisas irrelevantes. Se você mora em alguma cidade mexicana e tem um smartphone, você pode passar horas lendo Wikipedia, assistindo Ted Talks e participando de cursos on-line gratuitos. O governo sabe que não consegue esconder toda a informação que não aprova. Por outro lado, é muito fácil inundar o público com relatórios conflitantes e informações falsas. Pessoas de todo o mundo estão a apenas um clique de distância de páginas sobre o bombardeio de Alepo ou sobre o derretimento das calotas polares no Ártico, mas há tantas páginas e sites contraditórios que é difícil saber o que acreditar. Além disso, inúmeras outras coisas estão há apenas um clique de distância, tornando difícil de se concentrar, e quando a política ou a ciência parecem muito complicado é tentador mudar para vídeos engraçados de gatos, fofocas de celebridades ou pornô.

Nesse contexto, a última coisa que um professor precisa dar aos seus alunos é mais informação. Eles já têm bastante. Em vez disso, as pessoas precisam da capacidade de dar sentido à informação, de saber a diferença entre o que é importante e o que não é, e acima de tudo saber juntar muitos bitsde informação para formar um cenário mais abrangente do mundo.

Na verdade, este tem sido o ideal da educação liberal ocidental por séculos, mas ainda hoje muitas escolas têm sido negligentes em cumpri-lo. Os professores empurram dados aos alunos, incentivando-os "a pensar por si mesmos". Devido ao medo do autoritarismo, as escolas liberais temiam repassar aos alunos grandes narrativas. Eles acreditavam que se nós fornecermos aos alunos muitos dados e um pouco de liberdade, eles vão criar sua própria imagem do mundo, e ainda que esta geração não consiga sintetizar todos os dados em uma história coerente e significativa do mundo, haverá muito tempo para construir uma boa síntese no futuro. Agora estamos sem tempo. As decisões que vamos tomar nas próximas décadas irão moldar o futuro da vida em si, e só podemos tomar essas decisões com base na nossa visão de mundo atual. Se esta geração não tem uma visão abrangente do cosmos, o futuro da vida será decidido aleatoriamente.

Parte dois: a hora é agora

Além da informação, a maioria das escolas focam em fornecer aos alunos um conjunto de habilidades predeterminadas tais como a resolução de equações, escrever um código de computador em C++, identificar reações químicas em um tubo de ensaio ou conversar em chinês. No entanto, considerando que nós não temos nenhuma ideia de como o mundo e o mercado de trabalho vai ser em 2050, nós realmente não sabemos quais habilidades específicas as pessoas vão precisar. Podemos investir muito ensinando crianças a escrever em C++ ou a falar chinês, apenas para descobrir que em 2050 a Inteligência Artificial pode codificar software muito melhor do que os seres humanos, e um novo aplicativo do Google Translate permitirá conduzir uma conversa quase impecável em mandarim, cantonês ou hakka, embora você só saiba como dizer "Ni Hao".

Então o que devemos ensinar? Muitos pedagogos argumentam que as escolas devem mudar para o ensino dos quatro “Cs" – pensamento crítico, comunicação, colaboração e criatividade. Em uma perspectiva mais ampla, as escolas devem minimizar as habilidades técnicas e enfatizar as habilidades de vida de propósito geral. O mais importante de tudo será a capacidade de lidar com mudanças, aprender coisas novas e preservar o equilíbrio mental em situações desconhecidas. Para acompanhar o mundo de 2050, você não vai precisar ter novas ideias e inventar novos produtos – você acima de tudo vai precisar se reinventar continuamente.

Como o ritmo da mudança aumenta, não apenas a economia, mas o próprio significado de "ser humano" é suscetível à mutação. Em 1848, o Manifesto Comunista declarou que "tudo o que é sólido desmancha no ar". Marx e Engels, no entanto, estavam se referindo principalmente às estruturas sociais e econômicas. Em 2048, as estruturas físicas e cognitivas também se desmancharão no ar, ou em uma nuvem de bits de dados.

Em 1848, milhões de pessoas estavam perdendo seus empregos em fazendas e indo para as grandes cidades trabalhar em fábricas. Contudo ao chegar à cidade grande, eles eram pouco suscetíveis a mudar de gênero ou a adquirir um sexto sentido. E se eles encontrassem um trabalho em uma fábrica têxtil, eles esperariam permanecer nessa profissão para o resto de suas vidas.

Em 2048, as pessoas podem ter que lidar com migrações para o ciberespaço, com identidades de gênero fluidos e com novas experiências sensoriais geradas por implantes de computador. Se eles encontrarem trabalho e propósito em design de ponta para um jogo de realidade virtual 3D, dentro de uma década não apenas esta profissão particular, mas todos os empregos que exigem este nível de criação artística, poderão ser assumidos pela Inteligência Artificial. Então aos 25 anos, você se apresenta em um site de namoro como "uma mulher de vinte e cinco anos de idade heterossexual que vive em Londres e trabalha em uma loja de roupas”. Aos 35, você diz que é "de um gênero não específico que está passando por um ajuste de idade, cuja atividade neocortical ocorre principalmente no Novo Cosmos do mundo virtual, e cuja missão de vida é ir onde nenhum designer de moda tenha ido antes". Aos 45, relacionamentos e auto definições são coisas do passado. Você apenas espera por um algoritmo para encontrar (ou criar) a combinação perfeita para você. Quanto ao significado da arte do design de moda, você é tão irrevogavelmente ultrapassado pelos algoritmos, que olhar para as suas realizações brilhantes da década anterior te causam constrangimento, ao invés de orgulho. E aos 45, você ainda tem muitas décadas de mudança radical à sua frente.

Por favor, não imagine este cenário literalmente. Ninguém pode realmente prever as mudanças específicas que vamos testemunhar. Qualquer cenário específico é provável que esteja longe da verdade. Se alguém descreve para você o mundo de meados do século XXI e soa como ficção científica, é provavelmente falso. Entretanto, se alguém descreve para você o mundo de meados do século XXI e não soa como ficção científica - é certamente falso. Não podemos ter certeza das especificidades, mudança é a única certeza.

Tal mudança profunda pode muito bem transformar a estrutura básica da vida, tornando a descontinuidade a sua característica mais saliente. Desde tempos remotos, a vida foi dividida em duas partes complementares: um período de aprendizado seguido por um período de trabalho. Na primeira parte da vida você acumulou informações, desenvolveu habilidades, construiu uma visão de mundo e construiu uma identidade estável. Mesmo que aos 15 anos você tenha passado a maior parte do seu dia trabalhando em uma lavoura de arroz da família (ao invés de estar estudando em uma escola formal), a coisa mais importante que você estava fazendo era aprender: como cultivar arroz, como realizar negociações com os comerciantes gananciosos da cidade grande e como resolver conflitos sobre terra e água com os outros moradores. Na segunda parte da vida você contou com suas habilidades acumuladas para explorar o mundo, ganhar a vida, e contribuir para a sociedade. Naturalmente, mesmo com 50 anos você continuou a aprender coisas novas sobre o arroz, sobre comerciantes e sobre conflitos, mas estes eram apenas pequenos ajustes às suas já afiadas habilidades.

Em meados do século XXI, a velocidade das mudanças e o aumento da expectativa de vida tornarão este modelo tradicional obsoleto. A vida vai ficar saturada e haverá menos e menos continuidade entre diferentes períodos da vida. "Quem sou eu?" será uma pergunta ainda mais urgente e complicada do que nunca.

É possível que isso implique em níveis elevados de stress. Mudanças são quase sempre estressantes, e depois de uma certa idade a maioria das pessoas simplesmente não gosta de mudar. Quando você tem 15 anos, sua vida inteira é uma mudança. Seu corpo está crescendo, sua mente está se desenvolvendo e seus relacionamentos estão se aprofundando. Tudo está em fluxo e tudo é novo. Você está ocupado se inventando. A maioria dos adolescentes acham isso assustador, mas ao mesmo tempo, também acham emocionante. Novos panoramas estão se abrindo para você, e você tem um mundo inteiro para conquistar. Quando você está com 50, você não quer mudar, e a maioria das pessoas já desistiu de conquistar o mundo. Já estive lá, já fiz isso, já vesti a camisa. Você prefere estabilidade. Você investiu tanto em suas habilidades, em sua carreira, em sua identidade e em sua visão de mundo que você não quer começar tudo de novo. Quanto mais você trabalhou na construção de algo, mais difícil é deixá-lo ir e dar espaço para algo novo. Você ainda pode estimar novas experiências e fazer pequenos ajustes, mas a maioria das pessoas em seus cinquenta anos não está pronta para a revisão das estruturas profundas de sua identidade e personalidade.

Há razões neurológicas para isso. Embora o cérebro adulto seja mais flexível e volátil do que se pensava, ainda é menos maleável do que o cérebro adolescente. Reconectar neurônios e religar sinapses é um trabalho duro. No entanto, no século XXI, você mal pode se permitir ter estabilidade. Se você tentar persistir com alguma identidade estável, trabalho ou visão de mundo, você corre o risco de ficar para trás. Considerando que a expectativa de vida provavelmente aumentará, você pode posteriormente, ter que passar muitas décadas como um fóssil nunca descoberto. Para permanecer relevante - não apenas economicamente, mas sobretudo socialmente - você precisará ter a habilidade de aprender constantemente e de reinventar-se, certamente em uma idade como 50 anos.

Como ser estranho é o novo normal, suas experiências passadas, bem como as experiências passadas de toda a humanidade, se tornarão guias menos confiáveis. Humanos como indivíduos e a humanidade como um todo cada vez mais vão ter que lidar com coisas que ninguém se deparou antes, como máquinas super inteligentes, corpos projetados, algoritmos que podem manipular suas emoções com uma precisão alarmante, rápidos cataclismos climáticos feito pelo homem e a necessidade de mudar a sua profissão a cada década. Qual é a coisa certa a fazer ao confrontar uma situação completamente sem precedentes? Como você deve agir quando está imerso em uma quantidade enorme de informação e não há absolutamente nenhuma maneira para absorver e analisar tudo isso? Como viver em um mundo onde a incerteza profunda não é um problema, mas uma característica?

Para sobreviver e prosperar nesse mundo, você vai precisar de muita flexibilidade mental e grandes reservas de equilíbrio emocional. Você terá que repetidamente abandonar o que você sabe de melhor e sentir-se em casa com o desconhecido. Infelizmente, ensinar as crianças a abraçar o desconhecido e manter o seu equilíbrio mental é muito mais difícil do que ensinar uma equação matemática ou as causas da primeira guerra mundial. Você não pode aprender resiliência lendo um livro ou ouvindo uma palestra. Os próprios professores geralmente carecem da flexibilidade mental que o século XXI exige, pois eles mesmos são o produto do antigo sistema educacional.

A Revolução Industrial nos deixou o legado da teoria da linha de produção na educação. No meio da cidade há um grande edifício de concreto dividido em muitas salas idênticas, cada sala equipada com fileiras de mesas e cadeiras. Ao som de um sino, você vai para uma dessas salas junto com 30 outras crianças que nasceram no mesmo ano que você. A cada hora um adulto entra e começa a falar. Em alguns lugares eles são pagos pelo governo. Um deles ensina você sobre a forma da terra, outro sobre o passado da humanidade, e um terceiro sobre o corpo humano. É fácil rir deste modelo, e quase todos concordam que independente das realizações passadas, agora ele está falido. Entretanto, até agora nós não criamos uma alternativa viável. Certamente não uma alternativa escalável que possa ser implementada no México rural, e não apenas em bairros de luxo da Califórnia.

Parte três: HackingHumanos

Então o melhor conselho que eu poderia dar a um jovem de 15 anos de idade preso em uma escola desatualizada em algum lugar do México, Índia ou Alabama é: não dependa muito dos adultos. A maioria deles tem boas intenções, mas eles não entendem o mundo. No passado, era uma aposta relativamente segura seguir os adultos, porque eles conheciam o mundo muito bem e o mundo mudava lentamente. Mas o século XXI vai ser diferente. Devido ao ritmo crescente das mudanças, você nunca tem certeza se o que os adultos estão dizendo é sabedoria atemporal ou uma ideia preconcebida desatualizada.

Então em que você pode confiar? Tecnologia? É uma aposta ainda mais arriscada. A tecnologia pode te ajudar muito, mas se ganhar muito poder sobre a sua vida, você pode se tornar um refém do seu dia a dia. Há milhares de anos, os humanos inventaram a agricultura, mas esta tecnologia enriqueceu apenas uma pequena elite, enquanto escravizava uma grande maioria. A maioria das pessoas se viu trabalhando a partir do nascer do sol até o entardecer, arrancando ervas daninhas, carregando baldes de água e colhendo milho debaixo de um sol escaldante. Pode acontecer com você também.

A tecnologia não é má. Se você sabe o que quer da vida, a tecnologia pode ajudá-lo a conseguir. Mas se você não sabe, será muito fácil para a tecnologia moldar seus objetivos para você e assumir o controle da sua vida. Especialmente porque quanto mais a tecnologia compreende melhor os seres humanos, cada vez mais você pode se ver servindo a tecnologia, ao invés do contrário. Você já viu aqueles zumbis vagando pelas ruas com seus rostos grudados em seus smartphones? Você acha que eles controlam a tecnologia ou a tecnologia os controla?

Você deve confiar em si mesmo, então? Isso soa bem em Vila Sésamo ou em um filme antigo da Disney, mas na vida real não é bem assim. Até a Disney está se dando conta disso. Assim como a personagem Riley Andersen do filme Divertida Mente, a maioria das pessoas mal se conhecem, e quando elas tentam "ouvir a si mesmos" elas facilmente se tornam vítimas de manipulações externas. A voz que ouvimos dentro de nossas cabeças nunca foi confiável, porque sempre foi o reflexo de programas de governo, de lavagem cerebral ideológica e de publicidade, sem falar de distorções bioquímicas.

À medida que a biotecnologia e o aprendizado de máquina (em inglês machine learning) melhorarem, será mais fácil manipular as emoções e os desejos mais profundos das pessoas e será mais perigoso do que nunca seguir o seu coração. Quando a Coca-Cola, Amazon, Baidu ou o governo souber como tocar o seu coração e pressionar os botões do seu cérebro, será que você saberá reconhecer a diferença entre o seu “eu” e o marketing dessas marcas?

Para ter sucesso em uma tarefa tão assustadora, você vai precisar trabalhar duro para conhecer melhor o seu sistema operacional. Para saber o que você é e o que você quer da vida. Este é, naturalmente, o conselho mais antigo do livro: conhecer a si mesmo. Durante milhares de anos, filósofos e profetas incitaram as pessoas a se conhecerem. Mas este conselho nunca foi tão urgente como no século XXI, porque ao contrário dos dias de Laozi ou Sócrates, agora você tem uma forte concorrência. Coca-Cola, Amazon, Baidu e o governo estão todos correndo para hackearvocê. Não o seu smartphone, não o seu computador, e não a sua conta bancária - eles estão em uma corrida para hackear você, e seu sistema operacional orgânico. Talvez você tenha ouvido que estamos vivendo na era de computadoreshacking, mas isso é uma meia verdade. Na verdade, estamos vivendo na era de hackinghumanos.

Os algoritmos estão te observando agora. Eles estão vendo onde você vai, o que você compra, quem você encontra. Logo eles vão monitorar todos os seus passos, todas as suas respirações, todos os seus batimentos cardíacos. Eles estão confiando em Big Data e em machine learningpara conhecer você melhor e melhor. E uma vez que esses algoritmos conheçam você melhor do que você mesmo, eles poderão te controlar e te manipular, e você não terá muito o que fazer sobre isso. Você vai viver no filme Matrix ou em O Show de Truman. No final, é uma questão empírica simples: se os algoritmos realmente entenderem o que está acontecendo dentro de você melhor do que você entende, a autoridade vai mudar para eles.

Claro, você pode ser perfeitamente feliz cedendo toda a autoridade para os algoritmos e confiando-lhes para decidir as coisas para você e para o resto do mundo. Se assim for, apenas relaxe e desfrute do passeio. Você não precisa fazer nada. Os algoritmos vão cuidar de tudo. Se, no entanto, você quer manter algum controle de sua existência pessoal e do futuro da vida, você tem que correr mais rápido do que os algoritmos, mais rápido do que a Amazon e o governo, e conhecer a si mesmo antes que eles façam. Para correr rápido, não leve muita bagagem com você. Deixe todas as suas ilusões para trás. Elas são muito pesadas.


Yuval Noah Harari 21 Lições para o Século XXI (Vintage Digital) publicado em 30 de agosto.

Artigo original: https://www.wired.co.uk/article/yuval-noah-harari-extract-21-lessons-for-the-21st-century

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