FĂ CĂNICA
- 19 de jun. de 2019
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Atualizado: 25 de mar.

O artista russo Constantin Stanislavski cunhou o termo FĂ CĂNICA no teatro, que significa âa capacidade do ator de acreditar tanto na ficção que chega ao ponto de convencer a plateia de que aquele universo ficcional Ă© uma realidade para a personagem, com gestos e movimentos que torna verossĂmil a sua interpretaçãoâ.
Eu teria vĂĄrias histĂłrias para contar para vocĂȘs, mas hoje falarei sobre o Arthur (nome fictĂcio, para preservar a identidade desse, que Ă© um caso real).
Conheci o Arthur na empresa que trabalhamos juntos. JĂĄ tinha ouvido falar do Arthur, mas ainda nĂŁo tinha tido a oportunidade de conhecĂȘ-lo. AtĂ© que um dia, essa chance apareceu e ele me contou um pouco sobre a sua histĂłria: sofreu abandono paterno desde a gravidez, viveu sempre com dificuldades financeiras com a mĂŁe, comprou um carro usado com o valor dos tickets que a empresa fornecia e levava marmita todos os dias (comia na mesa de trabalho). Tinha começado como estagiĂĄrio e logo depois foi contratado. Era um cargo operacional, nĂŁo ganhava muito, mas curtia o que fazia. Tinha um brilho diferente no olhar, uma vontade de fazer mais, de ter mais significado. Mas ele nĂŁo me disse, eu que percebi. Na Ă©poca, ele nem percebia que sentia tudo isso. Eu sim.
A partir daà passei a acompanhar o Arthur. Perguntava para a sua liderança e seus colegas como ele era e escutava o que ele também passou a me contar sobre o seu dia a dia. Era uma época em que ele ia se formar na faculdade e eu resolvi ajudå-lo a elaborar o seu TCC. Com isso, apresentei-o a algumas pessoas que não o conheciam na empresa e comecei a incentivå- lo a se desafiar.
Um dia, surgiu uma vaga para o mesmo cargo, mas em outro setor e com atividades bem distintas Ă s que ele fazia. Exigia um perfil mais voltado para relacionamento, exposição e, eu nĂŁo contei antes, mas Arthur era tĂmido. Era uma timidez misturada com uma insegurança proveniente de uma relativa baixa autoestima, o que lhe gerava pouca confiança em si. Foi aĂ que eu falei da vaga e disse que ele era perfeito para aquele papel! Meio desconfiado, ele nĂŁoentendia como seria possĂvel se encaixar naquele perfil e eu sĂł dizia âeu vejo coisas que vocĂȘ nĂŁo vĂȘ. Vai!â.
Arthur passou no processo seletivo e, informalmente, passei a ser uma espĂ©cie de mentora da sua caminhada. Toda vez que ele achava que tinha alguma dificuldade ou obstĂĄculo, eu incentivava que ele seguisse em frente e fizesse mais do que o esperado. Um processo que precisava ser revisto, virava uma ideia inovadora e, consequentemente, um projeto. E assim Arthur ia seguindo traçando os seus passos, sendo desafiado, sendo reconhecido eacreditando mais em si. Diversas vezes ele me disse: âVocĂȘ acredita mais em mim do que eu mesmoâ. E eu respondia que sim, mas que isso um dia seria diferente.
Um dia eu saĂ da empresa. Durante um tempo seguimos aquela mentoria Ă distĂąncia e Arthur passou a enxergar o que hĂĄ muito tempo eu via. Sem mais delongas, um pouco depois Arthur foi promovido e hoje Ă© um dos principais protagonistas do setor em que atua.
LĂĄ atrĂĄs eu tive fĂ© cĂȘnica no Arthur. Para que no futuro ele mesmo tivesse. O que fez com que a sua liderança, seus colegas e a empresa tambĂ©m tivessem, o que lhe proporcionou reconhecimento. Tenho certeza que hoje Arthur entende o seu valor. Hoje ele percebe que Ă© especial, acredita no seu potencial e inspira quem estĂĄ ao seu redor. E nĂŁo sĂł o seu valor no trabalho, mas naquele Ă s vezes difĂcil contexto familiar, na sua roda de amigos e nas suas escolhas e decisĂ”es.
A gente precisa ter mais fĂ© cĂȘnica nas pessoas, nos projetos, nas ideias, nos sonhos. A gente precisa ter mais capacidade de acreditar tanto em algo ou em alguĂ©m atĂ© fazer virar uma histĂłria de verdade. A gente precisa valorizar mais os pontos fortes, tornĂĄ-los ainda mais positivos e massivos a ponto de gerar um propĂłsito transformador.
A gente precisa acordar todos os dias com vontade de fazer a diferença. A gente precisa viver com entusiasmo de causar impactos, de gerar mudanças. A gente deve crer que Ă© possĂvel. A gente pode tornar a vida e nosso papel nessa sociedade mais significativos. A gente precisa ter mais fĂ© cĂȘnica. Nos Arthurs. Em nĂłs. Nos outros. Nesse paĂs.
Paulinha Morel - Hacker Fourge
"Minha pegada sempre foi a de olhar para as pessoas (e suas diversidades) e potencializar o que hĂĄ de melhor nelas, para que encontrem seu Ikigai e sejam mais felizes e realizadas, principalmente quanto TIME!" #cultura
