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Uma breve reflexão sobre colaboração e evolução social

Ou como a tragédia no Rio Grande do Sul nos traz a oportunidade de sermos colaborativos a longo prazo para recuperar o nosso Estado


Por Luciano Luis Mantelli 


Se tu não esteve fora do planeta no último mês, com certeza ouviu falar da tragédia climática que assola o Estado do Rio Grande do Sul. As enchentes deixaram um rastro de destruição no meu Estado, com centenas de pessoas mortas e milhares de desabrigados e desalojados.  



Como gaúcho nascido e criado, ver a minha terra passando por essa crise de proporções devastadoras muito me entristece. Mas, é em momentos como esse que testemunhamos o poder transformador da colaboração humana em sua forma mais pura. Esse senso de colaboração que aflorou no povo gaúcho e, também, na população do restante do país me trouxe à mente uma perspectiva inspirada na teoria da Espiral da Evolução Humana de Ken Wilber. É ela que trago no texto de hoje pra ti: te convido agora a refletir sobre os desafios e as oportunidades que emergem em tempos de crise.


Para quem não está familiarizado, a teoria da Espiral da Evolução Humana de Ken Wilber propõe que a consciência humana evolui através de níveis distintos, cada um caracterizado por modos diferentes de ser, pensar e interagir. A jornada começa com o "eu instintivo" e evolui até um futuro possível do "eu holístico". Isso, claro, não acontece em todas as pessoas ao mesmo tempo. É mais como um arrastão que puxa a média da população através desses níveis de consciência.


As enchentes no Rio Grande do Sul nos permitem visualizar essa teoria na prática. No auge da crise, vimos a colaboração surgir espontaneamente. Pessoas de todas as esferas da vida se uniram, movidas por um senso de urgência e solidariedade. Esse fenômeno inicial de colaboração reflete uma das características humanas mais básicas e naturais.


Nos primeiros dias de caos, o impulso de ajudar superou o ego e a busca por status. Todos estavam imersos em uma missão coletiva: salvar vidas, oferecer abrigo e distribuir suprimentos. Foi um momento de pura colaboração, onde a única preocupação era resolver problemas imediatos. Esse comportamento é emblemático do "eu impulsivo", onde a necessidade coletiva se sobrepõe às preocupações individuais.


Contudo, conforme a situação se estabiliza, a dinâmica social começa a mudar. Surgem lideranças, organizadores e, inevitavelmente, a competição por reconhecimento e poder. O altruísmo inicial dá lugar a comportamentos mais egoístas, refletindo o "eu ego pessoa ousada" descrito por Wilber. Este é o ponto onde a colaboração espontânea tende a ser substituída por interesses pessoais e jogos de poder.


Eu ouso dizer que não precisa ser necessariamente assim. 


Nós temos nas mãos uma oportunidade única de aprender e crescer a partir dessa experiência. A fase de reconstrução no Rio Grande do Sul pode se tornar um laboratório vivo para manter a chama da colaboração acesa. Para isso, precisamos reconhecer e valorizar nossas características naturais de cooperação e resolver, deliberada e conscientemente, não deixar que o ego e a competição dominem.


A evolução, como descrita por Wilber, não é linear nem simultânea para todos. Nossa sociedade ainda está transitando por esses níveis, e eventos como as enchentes nos oferecem uma chance de acelerar essa evolução para um "eu sensível" e, eventualmente, um "eu integral" ou mesmo um "eu holístico". Precisamos promover um senso de propósito e visão de futuro onde a colaboração não seja apenas uma resposta emergencial, mas uma prática constante.


É crucial lembrar que a colaboração não é uma utopia inalcançável. Ela acontece naturalmente em momentos de necessidade aguda - lembre-se: nós acabamos de ver isso na prática. O verdadeiro desafio é sustentar essa colaboração de forma consciente e voluntária, transformando a vontade de ajudar em um desejo contínuo e estruturado de construir um futuro melhor para todas as pessoas viverem. 


Um futuro que eu gosto de chamar de desejável.


*Luciano Luis Mantelli nasceu no berço da agricultura familiar do Rio Grande do Sul, é pai, esposo, multiempreendedor e hacker. É sócio fundador da FOURGE, que atua em cinco verticais: modelos de gestão, modelos de negócio, gestão da inovação, FOURGE Tech (focado em tecnologia e negócios) e Zhero (especializada em colocar a ciência de dados no centro dos negócios). Em paralelo, está também à frente da Escola Yellow, com foco em educar crianças para melhorar o mundo.












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